Em seu curso derradeiro A coragem da verdade, Michel Foucault retomará o conceito greco-romano de parresia – traduzido tanto como fala-franca, quanto libertas – e sua relação com o cuidado de si. O gesto parresiástico constitui-se enquanto modalidade do dizer-a-verdade, na qual a verdade do que é dito implica-se à coragem, constituindo um ethos – o modo de ser do sujeito; uma ética na qual estão implicados à vida a coragem e o risco. Utilizando as contribuições de Foucault acerca da parresía, dessa modalidade do dizer-a-verdade, objetivamos uma articulação possível com a ética na prática clínica em Psicologia. Essa articulação surge a partir dos encontros presenciais do grupo de pesquisa Da subjetividade à verdade, onde nos debruçamos sobre os quatro últimos cursos de Foucault, interessados na relação entre subjetividade e verdade. Ensejando a crítica do presente e acreditando numa clínica que acompanha processos, apostamos numa prática que se aproxima do fazer parresiástico que, distante da lógica confessional, não revela ao seu interlocutor a sua interioridade secreta, mas convoca-o ao cuidado como uma atividade que clama pela criação de si. Assim, pensamos o ethos como gesto que envolve o fazer parresiástico, que envolve a enunciação de um determinado modo de vida, a partir da constituição da dimensão dupla de vínculo presente na parresía e na prática clínica: vínculo daquele que profere com aquilo que é proferido e, essencialmente, da coragem desse que assume o risco de dizer, risco que pode suscitar no próprio desenlace da relação que é, simultaneamente, condição de seu dizer, ao mesmo tempo, na coragem de quem aceita receber como verdade aquilo que escuta. Nesse sentido, o ethos que buscamos na prática da Psicologia está implicado, através do gesto parresiástico, na possibilidade de constituição de um modo de vida sempre mais potente, mais alegre e mais ativo.
Autores:
MARIA CLARA SOUSA OLIVEIRA
ALICE MIRANDA FATORELLI
CAROLINE CHAGNON
LUCAS DONHAUSER
P E D R O Q UA D RA D E A RAUJ O M AC H A D O F E R R E I RA
RAFAEL BRANDÃO VENTURINI DE FREITAS
Fonte financiadora do trabalho:
CNPq; FAPERJ.
